loading . . . 'Abominável': Nova leva de documentos do caso Epstein expõe nomes e imagens de vítimas de abusos A nova leva de documentos do caso contra o financista Jeffrey Epstein, que morreu antes de ser julgado por acusações de abuso de menores e de comandar uma rede de tráfico humano, expôs, mais uma vez, suas ligações com a elite econômica e política dos EUA, mas também desferiu mais golpe contra suas vítimas: os nomes de dezenas delas não foram omitidos pelo Departamento de Justiça, e imagens mostraram os corpos e os rostos das mulheres, muitas delas menores de idade na época.
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De acordo com uma revisão dos mais de 2 milhões de documentos — que incluem desde e-mails até fotos e mensagens de texto — feita pelo Wall Street Journal (WSJ), os nomes de 43 vítimas aparecem. Em um caso, o de uma menor de idade na época dos abusos, há 160 citações, por vezes acompanhadas de outros detalhes que deveriam ser sigilosos, como contas de e-mail e endereços residenciais.
Advogados que representam as vítimas disseram ao jornal que entregaram, no começo de dezembro, uma lista com 350 nomes que não poderiam ser citados publicamente.
— Nós os notificamos do problema dentro de uma hora após a divulgação — afirmou Brad Edwards, um dos advogados das vítimas, ao WSJ. — Foi reconhecido como um erro grave; não há desculpa para não corrigi-lo imediatamente, a menos que tenha sido feito intencionalmente.
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US DEPARTMENT OF JUSTICE
De acordo com a lei que determina a divulgação ds documentos do caso Epstein, aprovada com o apoio de governistas no Congresso, no ano passado, o Departamento de Justiça é obrigado a omitir os nomes de todas as vítimas, assim como proteger suas imagens em fotos e vídeos antes que sejam tornados públicos. Um dos deputados democratas que apresentou o projeto, Ro Khanna, o governo violou a lei, e não descartou pedir a saída de membros do departamento, incluindo a secretária de Justiça, Pam Bondi.
— Na minha opinião, é um dos maiores escândalos da história do nosso país — disse Khanna em entrevista à rede NBC, no domingo.
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Para as vítimas, que ainda buscam justiça décadas depois dos abusos, a forma “abominável” (como descreveu a advogada delas) como o Departamento de Justiça as deixou desprotegidas foi mais uma forma de violência, agora pelas mãos do Estado.
— Estamos francamente chocadas com o nível de descaso que o departamento demonstrou em relação a essas mulheres — afirmou Brittany Henderson, advogada de uma das mulheres cujo nome apareceu nos arquivos, ao New York Times.
Além de nomes, centenas de imagens das vítimas foram divulgadas sem que seus rostos estivessem cobertos. Algumas fotos mostram mulheres nuas em uma praia na ilha particular de Epstein no Caribe — onde ocorreram muitos dos abusos — em salas e em quartos de propriedades do financista.
— É difícil imaginar uma forma mais flagrante de não proteger as vítimas do que disponibilizar imagens delas completamente nuas para download no mundo todo —disse ao New York Times Annie Farmer, uma das mulheres abusadas por Epstein e sua cúmplice, Ghislaine Maxwell. — É extremamente perturbador.
O Departamento de Justiça reconheceu os erros, mas o número dois do órgão, Todd Blanche, afirmou que eles correspondem a “0,001% de todos os materiais".
— Sempre que recebemos uma mensagem de uma vítima ou de seu advogado informando que acreditam que seu nome não foi devidamente ocultado, corrigimos isso imediatamente — declarou à rede ABC no domingo.
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Para as vítimas, a explicação não foi convincente, e deixou claro o que elas veem como descaso do Departamento de Justiça.
— Há ali um verdadeiro tesouro de informações das vítimas. Então, a questão para mim e para muitos outros sobreviventes é: “O que estamos protegendo?” — disse Danielle Bensky, uma das sobreviventes do esquema de Epstein, à rede CNN. — Portanto, se você não está protegendo os sobreviventes, então quem você está protegendo?
Jeffrey Epstein morreu em 2019, enquanto aguardava julgamento, mas suas ligações com o jet-set global e a longa lista de acusações de abuso e tráfico humano há mais de uma década servem de combustível para discursos políticos e teorias da conspiração. Em 2024, o então candidato à Presidência Donald Trump prometeu divulgar uma suposta lista de clientes do financista, sugerindo que nomes como os dos ex-presidentes democratas Bill Clinton e Barack Obama estariam ali.
Uma vez eleito, Bondi sinalizou que poderia divulgar a tal lista, cuja existência era questionada até pelos advogados que representaram Epstein e Maxwell. Meses depois, o FBI, a polícia federal americana, reconheceu que a lista não existia. Para alguns republicanos, que também usaram o caso Epstein como plataforma política, a explicação não foi suficiente, e eles começaram a pressionar a Casa Branca pela divulgação de todos os documentos do processo.
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Reprodução
A pressão interna, apoiada pela oposição democrata, ameaçou votações importantes, e culminou com a aprovação de uma lei exigindo a derrubada de sigilo. Trump queria abafar o caso, mas foi obrigado a ceder e sancionar o texto. Apesar de não trazerem (até o momento) elementos concretos que possam levar a novas condenações, os mais de 3 milhões de documentos serviram para jogar luz sobre a proximidade de Epstein com o núcleo de poder global. Entre os citados estão ex-presidentes, ex-primeiros-ministros, CEOs e outras pessoas influentes em suas áreas de atuação.
— Existem pessoas ricas e poderosas que podem não ter cometido nenhum crime, mas que trocam e-mails com Jeffrey Epstein muito tempo depois de ele ter sido condenado por pedofilia, falando sobre ir à ilha dele, falando sobre querer participar de festas extravagantes — disse Khanna à ABC. — O povo americano está se perguntando: “Como é que as nossas pessoas ricas e poderosas vivem neste país? Que código moral elas seguem?”.
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Para Trump, citado mais de mil vezes na nova leva de documentos, o caso ainda é uma espécie de bomba-relógio. Há menções positivas feitas por Epstein, mas também antigas acusações de abuso de menores contra o então magnata do setor imobiliário: uma das vítimas afirmou ao FBI ter sido estuprada por Trump quando tinha 13 anos, e que ela havia sido “presenteada” ao hoje presidente por Maxwell. O republicano nega as acusações, e no sábado, ao ser questionado, pareceu confiante.
— Eu não vi com meus próprios olhos, mas algumas pessoas muito importantes me disseram que isso não só me absolve, como é o oposto do que as pessoas esperavam. http://dlvr.it/TQjVpc