loading . . . Famílias inter-religiosas: as lições de tolerância onde evangélicos e adeptos do candomblé moram juntos Na contramão da intolerância religiosa, famílias brasileiras mostram que é possível conviver com as diferenças dentro de casa. É o caso de Marta Valéria dos Santos que, ao longo da vida, passou pelo catolicismo, kardecismo, até visitar uma igreja evangélica neopentecostal, na Zona Norte do Rio, e se identificar. Ali, junto de sua família, a recepcionista permaneceu por 20 anos e chegou a ter um cargo de diaconisa (pessoas que oferecem apoio espiritual, organizam atividades e são próximas aos pastores). Até que sua filha, Anna Carolina Santos, saiu da igreja e, tempos depois, começou a fazer parte de um terreiro de Candomblé.
— No início, foi um pouco confuso, porque não entendíamos algumas coisas. Mas fiz variados cursos que tinham essa abordagem racial e religiosa, conversei com minha filha, e me abri para entender que era algo que a fazia bem e foi um processo bonito e respeitoso — afirma Marta, assistente social e recepcionista, de 60 anos.
A realidade vivida nessa família contrasta com os dados do Disque 100, canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). No ano passado, o serviço recebeu um total de 2.472 registros de intolerância religiosa, que representa uma queda de 35.84% em relação a 2023, quando houve 3.853 casos.
Casos de intolerância religiosa no Brasil
‘Jesus não é intolerante’
Há sete anos, Anna Carolina, filha de Marta, conheceu o Candomblé através de uma amiga e, desde então, é ekedji (mulheres que não entram em transe, organizam o terreiro, preparam rituais, prestam apoio espiritual e lidam diretamente com os Orixás) em um barracão em Pedra de Guaratiba, Zona Oeste do Rio, estado que possui 2,5% de adeptos da Umbanda e do Candomblé, ficando atrás do Rio Grande do Sul, que tem o maior número no Brasil, com 3,6%, de acordo com o Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo Anna, no início, houve discordâncias, mas logo foram contornadas por meio do diálogo, respeito e a busca pelo conhecimento.
— O racismo religioso produz um imaginário distorcido, especialmente por conta do pensamento cristão que compõe a base de muitas famílias, inclusive a minha. Hoje, após algumas pessoas da minha família terem conhecido o terreiro que pertenço, e verem meu comprometimento, elas puderam reconstruir o imaginário que tinham sobre o Candomblé — celebra a professora universitária, de 29 anos.
De acordo com dados do Censo Demográfico 2022, o divulgado em junho do ano passado, o percentual de evangélicos alcançou o maior patamar histórico, com 26,9% da população brasileira. No Rio, Marta faz parte deste grupo, que representa 32,1% dos habitantes do estado. Formada em Serviço Social em 2021, ela aproveitou o embalo dos estudos para se aprofundar nos temas de espiritualidade e letramento racial. Para Marta, se espelhar em Jesus é, sobretudo, não compactuar com nenhum tipo de preconceito.
‘Conhecer as tradições’
Carolina Rocha, historiadora, pesquisadora e autora do livro “A culpa é do diabo: o que li, vivi e senti nas encruzilhadas do racismo religioso”, lançado pela Editora Oficina Raquel, explica que, apesar da afirmação comum ouvida há anos, o Brasil está longe de ser um Estado laico, principalmente pela falta de opção de escolhas.
— No Brasil, nós não temos escolha religiosa, porque não temos todas as opções apresentadas desde criança. Isso acontece porque, infelizmente, a gente vive em um país que demoniza e marginaliza o que vem dos negros. Então as pessoas olham o terreiro com desconfiança, com medo, acham que é “coisa do diabo”, que as práticas ali são selvagens, e não querem conhecer — reflete Carolina, que é conhecida como Dandara Suburbana.
Carolina Rocha
Cristiann Maciell
Em seu livro, recém-lançado, a historiadora traz relatos de diferentes pessoas em suas respectivas realidades, inclusive no contexto respeitoso de convivência familiar, se tratando de um ambiente com diversidade religiosa. Para Carolina, que também criou o projeto chamado Axé-Amém, um curso com pessoas evangélicas e de religiões de matriz africana, a convivência respeitosa é possível, sobretudo se buscar pela perspectiva das semelhanças.
— No meu livro, eu faço a seguinte pergunta: “o que colocar a culpa no diabo tem encoberto na sociedade brasileira?” E a resposta é: tem encoberto o racismo, a violência e o sexismo. Em qualquer religião, geralmente quem articula as atividades e quem cuida são as mulheres, mesmo se o líder for um homem. Esse é um ponto em comum. Então, a quem interessa que cristãos e povos de terreiro rivalizem? E que pessoas negras, estejam elas nas igrejas ou nos terreiros, não percebam que têm uma história em comum, e vejam que juntas podem ter lutas políticas? São perguntas que devemos fazer para pensar na união — questiona a pesquisadora e historiadora.
Marta também pontua as lições de tolerância e amor dadas por Jesus, que fizeram com que ela e sua família se tornassem menos intransigentes em relação àquilo que não conhecem.
— No evangelho a gente aprende que Jesus não é intolerante, ele é amor. Hoje, eu e minha família entendemos muitas coisas e quando não sabemos, não pré-julgamos, mas perguntamos. Seguir Jesus é entender que eu posso olhar uma pessoa de outra religião e respeitá-la, abraçá-la e não fazer o contrário — afirma Marta, que recebe o apoio de sua filha e complementa:
— É fundamental reconhecer o papel histórico das religiões de matriz africana na construção do Brasil. Esses espaços reconstroem laços familiares – muitas vezes consanguíneos – e preservam essa cultura. Se hoje sou uma ekedji confirmada para o Orixá Exu, é porque fui embalada por folhas, cantigas, comidas, rezas e afeto. Se renasci mãe de Orixá sendo uma jovem negra, é a certeza de que os terreiros garantem a manutenção da vida de jovens, principalmente negros — explica Anna Carolina.
‘O amor tudo suporta’
Nas redes sociais, um vídeo viralizado chama atenção: mãe e filha caminham juntas e sorridentes, mas com destinos diferentes: uma vai para o terreiro e a outra para a igreja. As personagens são Jayene Amaral e a mãe, Ana Paula, de Brasília. No Centro-Oeste, onde a Capital Federal está localizada, os adeptos da Umbanda e do Candomblé representam 0,6%, ficando em terceiro lugar no ranking nacional, junto com a região Nordeste, com a mesma porcentagem, de acordo com o Censo 2022.
A influenciadora digital, de 24 anos, conta que em 2021 conheceu a Umbanda, mas antes disso, a própria mãe, que é evangélica, havia indicado um terreiro. A relação, segundo ela, é respeitosa, apesar de divergências ainda existirem.
— A gente mantém uma relação que não se baseia na religião, mas no amor. A falta de respeito pela fé do outro, muitas vezes, vem do medo, da falta de compreensão ou de uma visão rígida apenas para a própria crença. Quando uma família não aceita a espiritualidade de um de seus membros, pode gerar traumas, afastamento e até uma perda de conexão entre as pessoas. E isso não é o que eu e minha mãe desejamos — explica Jayene, que tem mais de 70 mil seguidores no Tik Tok.
Evangélica há 20 anos, Ana Paula faz parte da população do Centro-Oeste que declara da religião, com 31,4%, ocupando o segundo lugar no ranking nacional, atrás da região Norte, com 36%, de acordo com o Censo. Para ela, que quando criança foi católica, o amor precisa ser a base nas relações entre as pessoas e nas próprias religiões.
— Acho que não será com preconceito que vou mostrar para os outros o verdadeiro amor de Jesus Cristo. O respeito e o amor são a base de tudo. Mas eu gosto sempre de lembrar que, apesar de sermos mãe e filha, devemos entender que temos gostos e opiniões diferentes. E tudo bem com isso. Acredito que o amor tudo suporta — afirma a funcionária pública, que também levanta uma reflexão:
— A religiosidade levou Jesus até a morte. Então as pessoas precisam se conscientizar em relação a isso e não transformar a fé em algo que ela não é.
Desde que conheceu a Umbanda, Jayene conta que sua vida mudou por completo, porque trouxe um sentimento de cuidado com o próximo e tem gratidão por seus guias.
— Eles [guias] são tudo o que sempre desejei. São o ar que respiro ao levantar até a leveza quando vou dormir. Acredito que a umbanda me trouxe um sentimento mais puro, de querer cuidar e ensinar os outros. Até porque, é graças às entidades que estou viva até hoje — conclui. http://dlvr.it/TQGF9J