loading . . . Falta de dólares, insegurança jurídica e queda do poder de compra da população estrangularam relações comerciais entre Brasil e Venezuela A Venezuela já foi o sexto maior parceiro comercial do Brasil, há mais de duas décadas, mas hoje a vizinha representa apenas 0,24% das vendas do país no exterior, ocupando a 52ª posição no ranking de compradores. A retração da economia venezuelana, a perda de poder aquisitivo da população, bloqueio da remessa de dólares para o exterior e até questões políticas fizeram minguar o fluxo comercial entre os dois países.
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Especialistas avaliam que, no curto prazo, o cenário político e econômico ainda é nebuloso depois da prisão de Nicolás Maduro por forças militares dos EUA. Mas no médio prazo, se o país voltar a ser uma democracia legítima, recuperar a produção de petróleo e oferecer segurança legal para empresas, o fluxo comercial com o Brasil poderia voltar aos quase US$ 5 bilhões registrados em 2007, o pico da série histórica. Nesse cenário, dizem, com 28 milhões de habitantes, a Venezuela voltaria a ser um mercado consumidor importante para produtos brasileiros.
— A recuperação da produção de petróleo e de setores industriais básicos, por meio de reformas que revertam anos de desinvestimento e incentivem capital estrangeiro é condição necessária para restabelecer a capacidade de importação e gerar demanda por produtos brasileiros — diz Gerson Brilhante, analista da Levante Inside Corp..
Um dos principais problemas da Venezuela hoje é a falta de divisas em dólares, dizem os especialistas. No Brasil, as empresas não vendem para a Venezuela a prazo, só com pagamento antecipado. Dados da Ceic Data, uma plataforma global de dados econômicos e setoriais, apontam que as reservas internacionais em dólares da Venezuela seriam de apenas US$ 13 bilhões no final de 2025.
— Hoje, não se sabe exatamente quais são as reservas internacionais oficiais do país. Mas se a produção de petróleo crescer e o dinheiro da exportação ficar no país, a Venezuela pode voltar a crescer economicamente e voltar a ser o ótimo parceiro comercial que foi do Brasil no passado — diz José Augusto de Castro, especialista em comércio exterior e presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).
Nesta semana, o presidente Donald Trump afirmou que a Venezuela comprará apenas produtos dos Estados Unidos com o dinheiro da venda de petróleo, incluindo itens agrícolas, medicamentos, equipamentos médicos e para infraestrutura da rede elétrica.
Produção de petróleo encolheu
Ele lembra que com a chegada do governo chavista, a partir de 1999, a produção de petróleo começou a ser estatizada. Empresas americanas tiveram as instalações confiscadas. Mas ao longo do anos, sem investimento em novas tecnologias e equipamentos, a produção de petróleo na Venezuela despencou de mais de 3 milhões barris por dia para perto de 900 mil atualmente.
Além disso, nos anos 2015 a 2016, o preço do petróleo despencou de US$ 100 para US$ 40 piorando a situação do país, que tem 70% de sua economia atrelada à produção de petróleo. Diante desse quadro, o governo passou a restringir a conversão de bolívares, a moeda local, em dólares, dificultando o pagamento de importações. Também pesam as sanções econômicas e o embargo sobre a venda de petróleo para os Estados Unidos, que afetam a exportação do óleo bruto e a importação de matérias-primas.
A mistura de baixo crescimento econômico e hiperinflação fez a renda dos venezuelanos encolher muito nas últimas décadas. A taxa de inflação anual na Venezuela foi em média de 3.527% de 1973 até 2025, segundo a Trending Economics, plataforma global de dados econômicos e financeiros. De 2012, início do governo Maduro após a morte de Hugo Chávez, até 2020, o PIB per capita desabou de US$ 12.607 para US$ 1.506. Isso significa que, em menos de uma década, a riqueza média do venezuelano encolheu quase 90%.
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Os números do comércio com o Brasil hoje são tímidos, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). No ano passado, as exportações brasileiras para o país vizinho totalizaram US$ 838,2 milhões, queda de 30% em relação a 2024. Já as importações de produtos venezuelanos recuaram 17,3% na comparação anual para US% 349,1 milhões. O Brasil, que já vendeu máquinas, muita carne e serviços de engenharia para a Venezuela, atualmente se limita a vender açúcar, arroz e farinha, principalmente.
O setor de aves, por exemplo, em 2014, exportou 202 mil toneladas para a Venezuela com receita de US$ 428 milhões. Desde então, as vendas foram encolhendo. No ano passado, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), entre janeiro e novembro, foram embarcadas apenas 20 toneladas que geraram US$ 20 milhões em receita.
No caso da carne bovina, a Venezuela também se tornou um mercado muito pequeno. Até novembro do ano passado, foram exportadas 318 toneladas no valor US$ 476 mil, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). Em 2014, a Venezuela ficou entre os cinco maiores importadores do produto comprando160 mil com receita de quase US$ 900 milhões.
No setor automotivo, o Brasil exportou mais de 500 mil veículos até novembro do ano passado, um crescimento de quase 40% em relação ao ano anterior. Desse total, apenas 2,7 mil veículos foram para a Venezuela, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), um número muito pequeno que vem se repetindo nos últimos anos.
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O professor de relações internacionais da ESPM, Roberto Uebel, lembra que questões políticas também pesaram no esfriamento do comércio entre os dois países. Enquanto nos governos Lula e Dilma, a corrente comercial se manteve em alta, nos governos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro, houve um afastamento. O professor aponta que as estradas ruins na fronteira entre Venezuela e Brasil também acabam sendo um limitador logístico para as exportações porque encarecem o frete.
— E temos que lembrar que a Venezuela faz parte do Mercosul, embora esteja suspensa. Se voltar a ser uma democracia, ela pode voltar ao bloco e os países teriam acesso a um petróleo com custo mais baixo, por exemplo — observa Uebel.
Insegurança jurídica
A expropriação de unidades de petroleiras americanas pelo governo chavista da Venezuela criou uma insegurança jurídica que afasta empresas estrangeiras do país, dizem os especialistas. Além da petroleiras, fábricas de veículos americanas como a GM e Chrysler foram estatizadas ou até mesmo abandonadas nos últimos anos.
— A crise política venezuelana e a deterioração institucional reduziram a confiança e a previsibilidade jurídica no país, afetando a demanda por produtos brasileiros e o pagamento de compromissos comerciais — explica Brilhante, da Levante.
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A retomada dos fluxos comerciais, diz Brilhante, exige uma combinação de fatores macroeconômicos e institucionais, entre eles estabilidade política reconhecida internacionalmente, garantias de segurança jurídica e de pagamentos, controle de inflação e acesso a financiamento externo para importar bens de consumo e insumos.
— Sem isso e, particularmente sem um ambiente econômico viável e confiável, a corrente de comércio dificilmente se restabelece em níveis históricos — afirma. http://dlvr.it/TQFDqJ