loading . . . Do Rio para o mundo: biquínis mais usados nas praias da cidade inspiram tendência no exterior às vésperas do verão europeu Depois de uns dias de férias no Rio, Mahoro Seward, repórter da revista Vogue britânica, garantiu que mudou o “nível de determinação” em relação ao guarda-roupa de verão. Em reportagem escrita para a publicação inglesa sobre os biquínis mais usados pelas brasileiras nas praias cariocas, a jornalista descreveu com entusiasmo de fã não só o design das marcas brasileiras, mas a consciência corporal das mulheres locais e a fortíssima moda praia da “cidade do eterno verão”.
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O típico biquíni do Brasil é caracterizado na reportagem como uma variação em torno de modelos cavados que se adaptam às curvas do corpo. A revista cita várias marcas cariocas, como Farm, Osklen, Adriana Degreas e Haight, além da “própria praia”. A última grife citada, veja que curioso, é uma reunião das peças vendidas pelos próprios ambulantes que andam quilômetros carregando guarda-sóis repletos de itens.
Quem produz
A origem dessas peças na vitrine da areia, no entanto, está espalhada por fábricas pelo estado do Rio. Alguns ambulantes contaram que produzem com costureiras parceiras, e mais não dizem — o segredo, às vezes, é a alma do negócio. Outros disseram que compram no atacado, com lojistas e fabricantes locais, e revendem nas areias.
Uma dessas fábricas é de Thalita Loroza, jovem gonçalense de 33 anos, em parceria com o marido, Magnum Vinicius Rodrigues, de 34, responsável pelo marketing. Vendedora nata, ela conta que tudo começou quando, grávida, foi demitida de um emprego no setor comercial. À época, Magnum fez uma parceria com uma loja de moda praia e, na base da permuta, conseguiu 10 conjuntos de biquíni para a esposa.
— Eu fiquei com um, presenteei outros três e vendi seis, cada um por R$ 100. Com o dinheiro, voltei e comprei mais. Fiquei um ano e meio fazendo isso, até que vi uma oportunidade de negócio e criei a minha própria fábrica. No início não entendia nada de modelagem, mas tinha o sonho de trabalhar com moda — conta ela, que acumula no perfil da marca no Instagram mais de 300 mil seguidores. As vendas são online, mas ela já teve loja física em Niterói, São Gonçalo, Duque de Caxias, Realengo e Bangu.
Ela mesma busca referências para os modelos e os desenvolve, desde 2019, com uma modelista de Cachoeiras de Macacu, que conheceu em um grupo de costureiras de São Gonçalo. A clientela é do Brasil todo, além de estrangeiros, que compram para revender dentro e fora do Rio. Thalita também exporta peças para Portugal, França e, nos próximos meses, vai abrir um ponto de revenda em Málaga, na Espanha — simplesmente a vitrine da moda praia europeia.
— Eu e minha irmã vimos um mercado potencial muito grande. Os estrangeiros compram muito comigo. Outro dia vieram francesas comprar 300 peças. Vem muitos argentinos e bolivianos comprar para revender em Búzios — conta a empresária.
Quem usa
Nas praias de Copacabana e Ipanema, as vendas estão aquecidas, quase tanto quanto o sol.
— As gringas preferem as peças com cores do Brasil. O modelo triângulo é o que mais sai — explica um vendedor de Ipanema. Os preços variam entre R$ 80 e R$ 120, a depender do tipo de tecido, que pode ser texturizado, de poliamida ou poliéster.
Enrolada numa canga que reproduz o desenho da bandeira brasileira, a lituana Ksenia Mityanina, do Nordeste da Europa, levou vários biquínis encomendados pelas amigas. Isso, claro, depois de comprar o dela.
— Eu amo as cores do Brasil, acho a combinação mais icônica de moda praia. Meu marido é brasileiro, então para mim é parte da minha cultura e da minha família. As minhas amigas sempre pedem para levar biquínis brasileiros. Estou levando cinco — conta ela, que é economista.
O tal modelo triângulo do momento tem calcinha com alça ajustável e o sutiã cortininha, ideal para fazer a marquinha do bronzeado. É um dos mais vistos nas areias. Duas amigas da Suíça, Luana Wettstein e Valeria Flores, de 20 anos, deixaram os modelos europeus dentro da mala.
— O que mais gosto são as combinações de cores e o design, que ajusta perfeitamente no corpo, além de ser muito barato — conta Luana, que usava um biquíni de crochê.
A amiga acrescentou que, para além da estética, se sentiu mais confiante com o modelo brasileiro.
— É lindo, mais justo e ainda confortável. Eu me senti realmente mais bonita e mais confiante com ele. Acho que isso é o mais importante — conta Valeria.
Brasil na moda
Esse burburinho não é de hoje. O chamado “Brazilcore”, tendência que celebra a identidade nacional, extrapolou as camisas da seleção, virou estampa de biquíni, canga e acessórios, e até influenciou um estilo de vida.
Para Adriana Setti, diretora de conteúdo da The Summer Hunter – plataforma online que mapeia tendências de verão –, há décadas o país, e especialmente o Rio, são como uma espécie de laboratório estético global. Aqui nascem proporções, cortes, atitudes e códigos que depois se espalham pelas praias da Europa e além.
— O Brasil se consolidou como referência, mas esse protagonismo não é linear, vem em ondas. Em momentos de maior visibilidade internacional (como em Copas do Mundo, eventos culturais, as conquistas no cinema), esse interesse se intensifica. O imaginário tropical volta com força: verde e amarelo, sensualidade, corpo à mostra, uma certa ideia de liberdade — afirma Adriana. — Nos últimos 20 anos, os biquínis ficaram mais cavados, mais ousados, mais criativos. Na Espanha, o modelo de calcinha de biquíni mais cavado (sem ser fio dental) é chamado de “brasileña”, que não deixa dúvidas sobre a origem da referência — conta.
A recente passagem de divas pop no país, como os shows de Madonna e Lady Gaga em Copacabana, a viagem em família da cantora Dua Lipa no Rio, e os passeios de Rosalía, da região central à sul da cidade, também contribuíram para o hype.
— Todas elas usaram as cores do Brasil no vestuário em algum momento. Isso ressignificou muito a imagem do país para o próprio povo brasileiro. A gente saiu daquela polarização política e voltou a ter orgulho da nossa camisa e do verde e amarelo — contou o ator Hebert Alves, de 30 anos, sentado na canga de bandeira nacional.
O primeiro biquíni do Rio
O biquíni foi criado na França nos anos 1940, mas foi no Rio que se popularizou e se tornou símbolo nacional. A primeira vez que ele surgiu em uma praia carioca, mais precisamente no Arpoador foi em 1948, ironicamente, usado por uma alemã acariocada, Miriam Etz.
— Foi um importante momento no processo de ruptura com padrões conservadores do comportamento feminino local da época — explica Paula Acioli, pesquisadora e analista de moda, autora do livro A Culpa é do Rio! A cidade que inventou a moda do Brasil.
Ela explica que o “biquíni brasileiro” se popularizou a partir dos anos 1960 com a difusão do estilo praiano do Rio e com o sucesso da música Garota de Ipanema, inspirada na musa Helô Pinheiro, de 1962. Cheia de criatividade, a estética local virou referência global.
— Quando a praia passa a ser extensão da vida social, tudo muda — afirma, citando a jornalista Marcia Disitzer, autora do livro “Um Mergulho no Rio, 100 anos de moda e comportamento na praia carioca”. — A partir do final dos anos 1990, com o amadurecimento do setor e a internacionalização de marcas de moda praia, o Rio passa a se consolidar também como exportador, não só de tendências, mas também de coleções — afirma Paula. http://dlvr.it/TS77Bt