loading . . . O ‘super El Niño’ e a era do desespero por cliques Eu tenho muita coisa para desabafar. Ao final desse texto, vou colocar algumas informações sobre o El Niño que está se formando, vou falar um pouco do fenômeno e trazer as informações mais recentes que temos. Se você só quiser ler sobre isso, pode pular para o final do post.
Cada dia ando mais desanimada com situações da internet. O desespero por cliques, que faz perfis de notícia criarem imagens (muitas geradas por IA) ou manchetes (também geradas por IA) com o real intuito de chamar a atenção e reverter em clique ou tempo gasto na leitura. Trata-se de uma consequência da tal **economia da atenção** : tem tanta coisa na internet que algumas pessoas são capazes de qualquer coisa para se sobressaírem, chamarem a atenção de alguma forma.
Ainda sobre a IA generativa, textos gerados por IA me incomodam. Eu sei que muita gente usa a IA para ajudar a corrigir um texto, coisas mínimas de edição. Eu até entendo isso, porque você está melhorando algo que criou e aprendendo nesse processo. Mas aqui não me refiro a esse uso consciente, falo especialmente de dois problemas: textos inteiramente gerados por IA para serem postados em portais ou perfis em redes sociais e pessoas que usam serviços como ChatGPT para fazer buscas e pesquisas que antes fariam em sites como Google. Há quem se ache especialista em alguma coisa porque fez meia dúzia de perguntas para um LLM e acha que pode escrever sobre esse assunto com propriedade.
Somando essas coisas que mencionei ao desespero por noticiar algo em primeira mão, temos como resultado informações desencontradas e muito ruins, que mais confundem do que ajudam.
Eu estou observando isso no caso do próximo El Niño, que de acordo com os modelos de previsão deve começar agora entre maio e junho e tem alta probabilidade de continuar até o verão do hemisfério sul (dezembro/2026 – fevereiro/2027). A imprensa tem usado termos como ‘super’ El Niño e eu sempre tenho a impressão de que termos como “super”, “hiper” ou coisas assim transmitem uma ideia de extrema intensidade e, no caso do El Niño, muitas pessoas nem sabem o que quer dizer essa extrema intensidade, não sabem no que isso vai refletir no dia a dia delas (mais chuva? menos chuva? mais calor?).
**Vamos começar falando do que o El Niño faz** :
Antes de falar sobre esse episódio espefício de El Niño 2026/2027 que está se desenhando, vou falar sobre o que o El Niño geralmente causa no Brasil. Não quero me repetir e quero que as pessoas leiam outros textos daqui do blog. Então separei alguns:
* O que é o El Niño?
* Qual a relação entre as chuvas intensas do Rio Grande do Sul e o El Niño?
* Vamos falar sobre El Niño
* La Niña x El Niño
* A célula de Walker e o El Niño
* El Niño e La Niña: um pouco sobre esses fenômenos
Resumidamente (_de maneira muito resumida mesmo_): o El Niño faz chover muito no sul do Brasil e deixa região central do Brasil ainda mais seca. Como a estação chuvosa daqui do Cerrado começa apenas em outubro, se esse cenário de El Niño continuar se desenhando, é possível que tenhamos pouca chuva na estação chuvosa. Isso gera um efeito cascata, afetando várias atividades econômicas e destaco especialmente agronomia e geração de energia elétrica.
Só que o El Niño não é o único fenômeno que acontece na atmosfera terrestre e nem é o único fenômeno de escala maior que afeta o clima brasileiro. Além do El Niño, o clima brasileiro também é influenciado por diversos outros fenômenos oceânico-atmosféricos de grande escala. Entre os principais está a La Niña, caracterizada pelo resfriamento das águas do Pacífico Equatorial, geralmente produzindo efeitos opostos aos do El Niño, com aumento das chuvas no Norte e parte do Nordeste e condições mais favoráveis à chuva no Centro-Oeste em alguns períodos.
Outro fator importante é o dipolo do Atlântico Tropical, relacionado às diferenças de temperatura entre o Atlântico Norte e Sul. Esse fenômeno influencia especialmente a posição da Zona de Convergência Intertropical, afetando o regime de chuvas no Norte e Nordeste do Brasil.
Também existem oscilações atmosféricas de escala intrassazonal, como a Oscilação Madden-Julian, que altera temporariamente os padrões de chuva nos trópicos, além de sistemas atmosféricos regionais, como a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), frentes frias, bloqueios atmosféricos e massas de ar, que modulam a distribuição das chuvas ao longo da estação chuvosa.
A interação entre todos esses fenômenos torna o clima brasileiro altamente complexo, fazendo com que os impactos observados em cada ano dependam da combinação entre diferentes forçantes atmosféricas e oceânicas. Ou seja: **o El Niño sozinho não explica tudo.** Por essa razão, é necessário que se ouça especialistas, nesse caso, meteorologistas que vão falar sobre cada um dos fenômenos que mencionei e procurar dar um panorama sobre a atmosfera de modo a explicar e propor uma previsão.
**Vai ter super El Niño?**
Eu já li de tudo. El Niño monstro, super El Niño, El Niño Godzilla. A maioria das coisas mais alarmistas, ouvi da parte de pessoas que não são meteorologistas. Portanto, fui conversar com alguns colegas e fazer algumas pesquisas.
Para começar, não existe o termo “super El Niño” na literatura científica. O que existe são El Niños mais intensos, nos quais a anomalia do pacífico está mais forte. Episódios conhecidos ocorreram nos anos 1983/1983, 1997/1998 e 2015/2016.
As previsões mais recentes apontam sim para que o El Niño 2026/2027 possa ser um desses eventos mais extremos. Diante desse cenário, o que sabemos hoje (22/05/2026) é que o El Niño está se desenvolvendo entre inverno e primavera, pode ter uma persistência até o verão 2026/27 e sua intensidade ainda incerta, mas com chance de evento forte.
Para o Cerrado e parte do Brasil Central, isso realmente acende um alerta, pois: pode atrasar o início da estação chuvosa, pode reduzir episódios persistentes de chuva, pode colaborar no aumento do calor e evapotranspiração e pressionar agricultura, reservatórios e geração hidrelétrica.
Fato é que ainda existe bastante incerteza, por isso é preciso continuar acompanhando a previsão nos próximos meses. O que eu gostaria de deixar muito evidente nesse texto é que o El Niño não é o único fator que modula nosso clima, como eu disse anteriormente. Não adianta olhar só para isso. Não adianta ficar vendo vídeo sensacionalista de pessoas que gostam de surfar na onda do catastrofismo e do desespero por cliques. Procure materiais de qualidade, como os links que indiquei ao longo do texto.
**Imagem em destaque** : Wikimedia Commons https://meteoropole.com.br/o-super-el-nino-e-a-era-do-desespero-por-cliques/