loading . . . Idealismo Histórico Dialético Uma coisa que vem me incomodando no webmarxismo, webcomunismo, ou seja lá como queira chamar, é o escanteio cada vez maior do _materialismo_ que é um dos pressupostos do marxismo e, voltando às raízes hegelianas, um abraçar ferrenho ao _idealismo_.
O materialismo é um pressuposto filosófico que coloca a _matéria_ como uma condição ontológica da existência. Ou seja, a matéria existe de fato e precede a consciência, o que enxergamos está de alguma forma de fato na realidade, por mais que não acessemos a matéria de fato, e somente as propriedades mediadas por nossos cinco sentidos (audição, olfato, paladar, tato e visão). É o oposto do idealismo, que pressupõe que a consciência tem primazia nessa relação.
O contexto _histórico_ da teoria marxista é bastante embebido na _dialética_ hegeliana. Esse semestre estou pagando a disciplina de História da Filosofia IV e vendo que o pensamento de Hegel de fato é muito mais complexo do que a bolha marxista da internet emplacou como sendo essa noção de _tese, antítese e síntese_ , na real isso é de fato uma enorme simplificação.
Mas qual o problema disso? É que além de simplificarem o pensamento hegeliano, também simplificam o pensamento marxista e retiram toda a materialidade, ficando com o puro suco do idealismo.
Marx nunca nos deu os moldes de como fazer a revolução, pois apesar de haver uma certa teleologia, não é nenhuma espécie de futurologia. O que é totalmente contrário com o que é posto por marxistas "influenciadores" que estão ganhando espaço nos ambientes virtuais, eles atribuem cada vez mais propriedades à revolução, de que ela irá nos trazer soluções para diversos dos nossos problemas, e só lembram do pensamento marxista na hora que são confrontados no "como?", de como a revolução irá trazer essas soluções, alegando que não tem fórmula mágica. Ora, se não tem fórmula, como que falamos que algo que ainda não aconteceu ou que nem sabemos como irá acontecer pode resolver algum dos nossos problemas? Como garantir que, pelo contrário, ele não nos trará outros?
Eu não estou aqui querendo descreditar a revolução, dentro do contexto marxista e da revolução como sendo uma ruptura do status atual, eu realmente acredito que nós inevitavelmente caminhamos para isso (olha aí a teleologia novamente). Minha crítica é, primeiro, a um grupo de influenciadores comunistas que usam a revolução como propagandismo, a vendendo como a solução de diversos dos problemas atuais, e o segundo ponto que vem como consequência disso, que é um público que passa a reproduzir o discurso sem ter a menor noção do que realmente está falando, ou seja, caindo em ideologia.
O "comunismo" é a etapa final, é a emancipação da classe trabalhadora das mãos da burguesia - isso, novamente, dentro da teleologia marxista - sendo necessária uma etapa de transição, o _socialismo_ , no qual a classe trabalhadora assume o poder e instaura uma "ditadura do proletariado", usando a estrutura estatal para dessa vez oprimir os burgueses. Nisso são os próprios trabalhadores que direcionam os meios de produção para servirem a seus próprios interesses de classe.
Um dos problemas da crítica marxista vem exatamente da questão de o maior foco ser nas classes econômicas, pois em Marx, as relações sociais são espelhos das relações de produção. Então se no capitalismo a lógica de produção se baseia no acúmulo de capital, as relações sociais também irão operar por esses termos, assim como cada época anterior tem também suas relações de produção específicas, como a escravidão, o camponês no feudalismo, e por aí vai.
Relações de gênero e raça estão também ligadas a essas relações de produção? Eu particularmente tenho minhas dúvidas quanto a isso, foi esse questionamento que veio fazendo com que eu me interessasse pelo libertarianismo nesses últimos tempos, pelo _socialismo libertário_ , mais especificamente, sendo uma das vertentes o próprio _anarquismo_. Socialismo que se opõe ao _socialismo autoritário_ , que prevê a tomada do Estado por um partido autoritário que instaura uma "ditadura do proletariado" afim do nos levar ao comunismo. Afinal o comunismo prevê o fim do Estado, na teoria marxista este é visto como uma "ferramenta de opressão de classes", e uma vez que não há mais classes sociais, este instrumento não se faz mais necessário. Mas como se dá as garantias de direitos nesse sentido? Ainda teremos estruturas jurídicas e de uso comum? Se sim, como isso é diferente de um Estado, olhando para um sentido _contratualista_ de um _pacto_ ou _contrato social_ ? E se não há essas estruturas, como que certos direitos podem ser garantidos? Contra racismo, homofobia e transfobia, machismo, e por aí vai. De novo, não acredito que esses problemas irão desaparecer com um transformar das relações de produção, inclusive outros marxistas também irão concordar comigo, não atoa também temos a evolução do pensamento marxista em diferentes frentes de lutas sociais, como feminismo marxista, ou de movimentos negros que também tem bases marxistas, como os _Panteras Negras_ , temos até mesmo um _marxismo-libertário_.
Por em descrédito aqui o fim do Estado acaba sendo bem contraditório com o que estava falando de me alinhar ao pensamento do socialismo libertário, mas é uma questão que realmente penso bastante, pois mesmo com uma ruptura, ainda haverão estruturas de mediação, mesmo que horizontais e livres dessa opressão de um Estado Burguês.
## Da revolução
"Somente a revolução brasileira pode nos livrar do imperialismo", "A classe trabalhadora deve tomar os meios de produção", "A ditadura do proletariado irá garantir os direitos dos trabalhadores". É bem comum vermos essas frases dentro da bolha comunista de internet. A pergunta que é feita sempre é no "como?", como que a revolução pode garantir qualquer uma dessas questões? Como garantir que ela não irá só mudar o eixo colonial dos EUA para a China, por exemplo? Isso para não falar de uma parcela do público que acredita que o trabalho humano não será mais necessário, ou de que questões de gênero e raça não irão continuar existindo em uma futura revolução, como comentei anteriormente. E é exatamente onde vai minha crítica a esse "idealismo" comunista. Porque aqui não se trata de materialismo, mas sim da idealização de uma revolução em cima dos moldes marxistas.
Não há uma fórmula mágica para esse processo, os próprios comunistas reconhecem essa limitação, pois a revolução é a própria síntese do processo revolucionário. Ou seja, nós só sabemos que ela acontece quando ela acontece, não temos como saber como vai se dar e nem os resultados que irá trazer, o máximo que podemos fazer é olhar para as experiências históricas como base, mas nada garante uma circularidade.
Então isso por um lado, se há promessas em torno de uma revolução, as perguntas de como se dará esse processo são sim válidas. Meu maior medo nesse propagandismo é a vulgarização do termo e, consequentemente, a perda de força de um processo revolucionário de fato. Uma coisa é a organização, o trabalho social, e a discussão e educação sobre o processo. Outra bem diferente é ficar gritando aos quatro ventos que ela irá solucionar problemas que afetam a vida do povo trabalhador como forma de juntar base eleitoral, mas isso sabendo que o próprio caminho para construir essa revolução é difuso.
## Dos meios digitais
Outra questão é em relação ao uso das redes digitais, aqui talvez eu ainda escreva um texto só para isso, mas tenho fortes críticas à esquerda nesse sentido, e aqui por diferentes motivos.
Primeiro, a aposta em redes centralizadas como ambientes de disputa política. Não que não seja necessário fazer esse combate, o problema é apostar como sendo o único meio viável. As plataformas de redes sociais em sua grande maioria são controladas por Big Techs americanas, a "luta" nesses espaços é uma uma luta perdida, infelizmente, não temos um pingo de controle sobre o que está sendo movimentado ali dentro. A coisa mais fácil é sofrer censuras arbitrárias como bloqueios ou limitação na entrega do conteúdo. Por isso acho importante sim pensar em redes descentralizadas como uma aposta de ambientes "seguros", onde possamos manter uma organização mesmo que as redes centrais venham a ser bloqueadas no país, por exemplo.
Segundo, minha crítica aqui vai principalmente à esquerda que já entendeu a importância da descentralização, mas que ignora a importância das redes sociais em si, que se por um lado tem total razão em apostar na militância nas ruas, nos trabalhos sociais, peca em desconsiderar o peso das redes no contexto atual que estamos vivendo, como se as conjunturas anteriores ainda se encaixassem no modo de vida atual. Ou seja, como se a lógica vivida quando só havia redes de televisão e jornais ainda valesse plenamente para o que estamos vivendo. Pra mim isso aí é cagar em cima do próprio movimento dialético da teoria marxista/hegeliana.
Hoje 90% da população brasileira possui acesso a internet, já se foi o tempo em que era necessário possuir um computador para isso, com qualquer celular de 200 reais é possível acessar alguma rede social. A TV aberta vem sendo cada vez mais substituída por YouTube nos aparelhos de televisão dos brasileiros, e precisamos considerar as implicações disso e das novas dinâmicas das redes.
Aqui vem aquela velha questão da "internet deu voz" para diversos indivíduos, ou seja, a comunicação não está mais restrita aos grandes grupos de mídia do país, houve uma certa "democratização" do discurso público, mesmo que ainda sob a égide de grandes grupos americanos e com a entrega controlada algoritmicamente, onde o conteúdo é entregue baseado no seu consumo prévio nas redes, ou até mesmo por arbitrariedade da própria plataforma, a formação das tais _bolhas digitais_.
Para além das redes, também já vi descrédito a movimentos como o do Software Livre e Open Source, com argumentos de que a Linux Foundation, por exemplo, é bancada por empresas capitalistas, principalmente americanas. O Linux hoje é o que sustenta a estrutura global de internet, então a menos que haja uma ruptura total com o modelo de computação atual, ele irá continuar sendo esse sustentáculo. E aqui é que entra a minha crítica ao "idealismo" dessa parte da esquerda marxista, a da ideia de que há alguma forma de retorno do paradigma atual, contrariando exatamente o pensamento marxista de superação do capitalismo a partir da tomada dos meios. Ou seja, trazendo um pouco de Foucault, a _resistência_ nessa "era da informação" que vivemos atualmente está exatamente no uso de tecnologias abertas, elas são financiadas pelas Big Techs exatamente porque muitas delas dependem desse desenvolvimento para continuarem operando, mas ao mesmo tempo é exatamente o que permite essa janela de possibilidade de tomarmos os meios. Como falei, desconsiderar isso é desconsiderar o próprio materialismo histórico dialético, ou a proposta é realmente desconsiderar toda a tecnologia atual e nos voltarmos para a natureza novamente? Não ironicamente essa parece ser a ideia, mas será que o resto do mundo está de acordo? Ou até mesmo será que todo o país está de acordo? Temos que mudar o sentido dessas ferramentas para servirem a nossos propósitos.
A luta contra o capital aqui não tem que ser contra o financiamento das tecnologias livres, o trabalho tem que de fato ser pago, esse financiamento pode muito bem vir de iniciativas estatais e comunitárias para continuar com esse desenvolvimento. A discussão principal tem que ser sobre o lixo produzido nesse processo, do hardware defasado, da obsolescência programada. Precisamos investir em hardware aberto e modular, hardware que possa ser reaproveitado, investir em formas de energia limpas e até mesmo numa reeducação no uso das tecnologias digitais, de fato, talvez realmente precisemos de uma reconexão com a natureza, de reduzirmos o uso e nos voltarmos para a Terra. Porém não há retorno, temos que pensar em como utilizar as tecnologias existentes a nosso favor, e não em descreditá-las por serem "bancadas" pelo capital, o dinheiro não move o desenvolvimento de nenhuma delas, no fim é tudo trabalho humano, certo? A superação que Marx fala não é a de negar o capitalismo, mas sim de usar a própria produção do capitalismo para impulsionar esse processo. https://blog.canoi.dev.br/idealismo-historico-dialetico/