loading . . . Conexões exclusivas, luxo e sexo: Como os arquivos Epstein revelaram o mundo oculto de uma elite sem freios Em detalhes implacáveis, os arquivos sobre o financista Jeffrey Epstein escancaram as atividades antes furtivas de uma elite sem prestação de contas, formada em grande parte por homens ricos e poderosos do mundo dos negócios, da política, da academia e do entretenimento. As páginas contam a história de um criminoso hediondo que teve passagem livre entre a classe dominante em que circulava, tudo porque tinha algo a oferecer: dinheiro, conexões, jantares luxuosos, um avião particular, uma ilha isolada e, em alguns casos, sexo.
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Essa história de impunidade soa ainda mais escandalosa em meio à crescente indignação populista e à desigualdade cada vez maior. As extravagâncias de Epstein e seus amigos ocorreram ao longo de duas décadas marcadas pelo declínio do setor manufatureiro americano e pela crise das hipotecas, que levou milhões de americanos a perderem suas casas.
Se a estratégia de Epstein era erguer um escudo contra acusações cercando-se de figuras influentes, o plano fracassou no final. Ainda assim, sua correspondência, antes e depois de sua primeira acusação formal por abuso de meninas, revela uma rede de contatos cujas vidas glamurosas contrastavam com as dificuldades dos americanos comuns. E, no centro dessa rede, estava um predador sexual aparentemente no auge do poder.
— Já ouvimos tanto sobre o escândalo Epstein nos últimos anos — disse Nicole Hemmer, professora de história na Universidade Vanderbilt e pesquisadora da cultura política. — E, ainda assim, as pessoas parecem chocadas com a extensão da cumplicidade da elite em seu mundo. É um nível de corrupção que o público agora está vendo por completo.
Rede de conexões
Em 2002, Epstein levou o ex-presidente Bill Clinton (1993-2001) e o ator Kevin Spacey em uma viagem por países africanos a bordo de seu jato particular. Dez anos mais tarde, seu talento para organizar encontros e eventos exclusivos continuava despertando interesse, com um dos homens mais ricos do mundo, Elon Musk, enviando um e-mail para ele em 2012 perguntando: “Qual dia/noite será a festa mais selvagem na sua ilha?”. Musk afirmou tempos depois que teve “pouquíssima correspondência com Epstein e recusou repetidos convites para ir à sua ilha”.
Houve ainda sua amizade com Donald Trump — o próprio líder republicano já o chamou de “um cara fantástico” que conhecia há pelo menos 15 anos. Além disso, Epstein trocou favores e conviveu com nomes como o cineasta Woody Allen; o linguista e intelectual Noam Chomsky; Kenneth Starr, o promotor independente na investigação contra Clinton; e Kathryn Ruemmler, ex-conselheira da Casa Branca no governo de Barack Obama, que renunciou ao cargo de diretora jurídica do Goldman Sachs em meio ao escrutínio sobre seus vínculos com ele.
Epstein também manteve contato com Stephen Bannon, aliado político do presidente Trump; Deepak Chopra, médico indiano e guru da Nova Era; o produtor Barry Josephson; Lawrence H. Summers, ex-presidente de Harvard e ex-secretário do Tesouro; Andrew Mountbatten-Windsor, o ex-príncipe Andrew; Sarah Ferguson, ex-duquesa de York; a princesa herdeira Mette-Marit da Noruega; e uma constelação de magnatas do setor financeiro.
O banqueiro americano James Staley, que recentemente deixou o cargo de diretor-executivo do Barclays após acusações envolvendo sua relação com Epstein, escreveu a ele em 2014 sugerindo que americanos da “casta superior” como eles dificilmente enfrentariam uma revolta populista como os protestos que ocorriam no Brasil na época. Ao mencionar os anúncios do Super Bowl daquele ano, Staley escreveu: “É tudo sobre negros descolados em carros descolados com mulheres brancas. O grupo que deveria estar nas ruas foi comprado. Por Jay-Z.”
Teorias da conspiração
A natureza chocante de algumas revelações, somada ao prestígio dos envolvidos, não conteve as teorias da conspiração que cercaram o caso — muitas vezes instrumentalizadas politicamente por setores da direita e da esquerda. Ao contrário, a divulgação de novos detalhes alimentou uma onda de especulações, frequentemente com pouca ou nenhuma base factual.
Em 2014, Epstein recebeu um e-mail de um assossiado cujo nome foi suprimido e que dizia, na íntegra: “Obrigado por uma noite divertida… sua menininha foi um pouco travessa.” Em outro e-mail, Epstein instruiu um destinatário, também com nome suprimido, a comprar vários brinquedos sexuais, acrescentando: “Quero que você fale da forma mais suja, vulgar e imaginativa que puder… Isso vai libertar sua mente. É como um espirro mental.”
Em 2009, Epstein escreveu a outro destinatário não identificado, que foi apontado na quarta-feira em uma audiência na Câmara como Sultan Ahmed bin Sulayem, um poderoso empresário dos Emirados Árabes Unidos: “onde você está? está bem, adorei o vídeo de tortura”. Em 2011, uma assistente disse: “Encomendei cocos jovens doces da Tailândia para você e eles acabaram de chegar… só para que você não precise beber sucos de coisas velhas e peludas”.
Sem contexto, mensagens como essas abriram espaço para interpretações variadas e deram munição a quem busca visibilidade por meio de teorias. Menções frequentes a pizza, por exemplo, reacenderam a desacreditada teoria do “Pizzagate”, de 2016, segundo a qual democratas proeminentes torturariam e estuprariam crianças no porão de um restaurante em Washington — apesar de os personagens e locais citados naquela narrativa serem quase totalmente distintos dos que aparecem nos arquivos Epstein.
Em 2018, o urologista de Epstein, Harry Fisch, escreveu: “Você tem reposições disponíveis” e acrescentou: “depois de usá-las, lave as mãos e vamos buscar pizza e refrigerante de uva” — combinação peculiar repetida em e-mails entre os dois que, segundo o médico, “mais ninguém consegue entender”. Fisch não respondeu a um pedido de comentário.
— Foi essa troca que nos fez pensar: ‘Espere um segundo. Talvez a teoria há muito desmentida sobre o Pizzagate não tenha sido realmente desmentida, e talvez alguém devesse olhar isso mais de perto’ — disse o podcaster conservador Tucker Carlson em seu programa.
Vídeos recém-divulgados da ala prisional onde ele foi encontrado morto indicam que uma figura humana não identificada se deslocava na direção de sua cela naquela noite. Isso levou alguns investigadores amadores da internet passaram a sustentar que Epstein, cuja morte sob custódia federal em 2019 foi oficialmente classificada como suicídio, pode ter sido assassinado. Outros levantaram dúvidas sobre sua morte ao lembrar que, em depoimento de 2017, ele afirmou ter uma tatuagem de arame farpado no bíceps esquerdo — inexistente na foto de seu corpo.
‘Elite imatura’
Para Hemmer, a pesquisadora da cultura política, a natureza obscura da vida de Epstein, aliada à divulgação desorganizada dos documentos pelo governo Trump, estava “fadada a turbinar uma tonelada de teorias da conspiração”. O deputado democrata Ro Khanna, que trabalhou com Marjorie Taylor Greene e Thomas Massie para aprovar a legislação que forçou a divulgação dos arquivos, descartou as teorias conspiratórias, mas ponderou:
— Precisamos nos perguntar como produzimos uma elite tão imatura, imprudente e arrogante.
Greene, que perdeu o apoio de Trump após insistir na liberação dos documentos, afirmou sentir-se parcialmente vindicada. Ela afirmou que os arquivos sobre o financista estão dando à população “um olhar por dentro de um mundo” que, até então, apenas achavam que existia.
— E todos fomos chamados de teóricos da conspiração por dizer isso.
Embora a vasta rede de contatos de Epstein leve alguns a vê-lo como um manipulador de uma cabala de elites, ela também sugere limites claros de sua influência. Apesar de contar com presidentes e membros de gabinete entre seus conhecidos, seu impacto direto na formulação de políticas públicas nos Estados Unidos foi considerado irrelevante.
Na mídia, seus contatos não eram donos de grandes veículos, mas figuras de menor hierarquia, como o autor Michael Wolff e o repórter financeiro do New York Times Landon Thomas Jr., que deixou o jornal após admitir ter solicitado recursos a Epstein para uma instituição de caridade pessoal. Também chama atenção a ausência, em seu círculo, de promotores federais, juízes ou autoridades policiais que pudessem ajudá-lo a escapar da Justiça.
No fim, Epstein foi preso, acusado de crimes sexuais graves e morreu na prisão enquanto aguardava julgamento. Sua associada, Ghislaine Maxwell, permanece encarcerada. Para Greene, no entanto, o acerto de contas está longe de ser completo: nenhum dos amigos ou associados homens de Epstein foi preso por seu comportamento.
— E agora o governo está dizendo que é hora de seguir em frente? Não ouço nenhuma das vítimas dizendo isso. https://sem-paywall.com/http%3A%2F%2Fdlvr.it%2FTQxLh2