loading . . . Câmeras do Bope não registraram ação no Morro dos Prazeres; PM afasta policiais O Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio (Bope) determinou nesta quinta-feira a transferência imediata de quatro policiais da unidade envolvidos na operação no Morro dos Prazeres, no Centro do Rio, em que o morador Leandro da Silva Sousa foi morto dentro de sua casa. Os agentes também foram afastados do serviço operacional e incluidos em atividades administrativas, não realizando policiamento nas ruas durante o período de investigações. A informação foi divulgada pela Secretaria de Estado de Polícia Militar.
Segundo a nota, a medida foi tomada após análise preliminar das ações realizadas de quarta-feira, quando foram identificadas atividades relacionadas ao mau uso das câmeras operacionais portáteis, de uso individual, por parte dos policiais. A classificação se deu após imagens das câmeras relativas ao momento da invasão da casa não terem sido encontradas nos equipamentos, confome apurado pelo EXTRA. A causa da ausência das gravações ainda é desconhecida.
"O afastamento busca assegurar a apuração rigorosa e transparente dos fatos, em conformidade com as normativas que regulamentam a utilização dos equipamentos", diz um trecho do documento.
O Ministério Público do Rio (MPRJ), que visitou a casa nesta quinta-feira, havia informado que a 2ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada do Núcleo Rio de Janeiro investigará o caso, após o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do órgão ter sido comunicado da operação. O MPRJ também havia solicitado ainda as imagens das câmeras corporais dos policiais envolvidos, além de outras informações sobre os resultados da operação e informações da Corregedoria. Promotores de Justiça e técnicos periciais estão acompanhando as necropsias.
Versões contraditórias
Para chegar ao trabalho, na Rua Alice, em Laranjeiras, Leandro Silva Sousa, de 30 anos, percorria uma distância de pouco mais de dois quilômetros. Ele acostumava acordar por volta das 7h para chegar ao restaurante Tasca do Edgar, onde era ajudante de cozinha, às 8h30. E não havia atrasos, como contou seu chefe ao GLOBO. Na manhã de quarta-feira, no entanto, a rotina foi interrompida antes que ele pudesse colocar o uniforme. Ainda de pijamas e ao lado da viúva, Roberta Ferro Hipólito, ele foi surpreendido com a entrada de traficantes por uma das janelas da casa, no Morro dos Prazeres. Armas foram jogadas por debaixo da cama do casal, enquanto policias militares cercavam o imóvel. O que aconteceu depois tem versões diferentes contadas pela Polícia Militar e por Roberta, a única sobrevivente. Na residência, ficaram marcas de tiros, sangue e pedaços de corpos espalhados.
Leandro, na verdade, é de Milton Brandão, cidade com cerca de 6.500 habitantes no norte do Piauí, na Região Nordeste. Ele se mudou para o Rio de Janeiro há 10 anos, em busca de melhores oportunidades e, pelo menos há 7, trabalhava em comércios da Zona Sul. Roberta, também piauiense, casou-se com ele em 2022. Os dois moravam juntos no Morro dos Prazeres, onde ocorreu a operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) contra roubos de veículos e o tráfico de drogas, como divulgou a corporação. Na ação, sete suspeitos de integrarem o Comando Vermelho foram mortos, incluindo Cláudio Augusto dos Anjos, o Jiló, chefe da região. Após o crime, a família de Leandro planeja abrir uma vaquinha de apoio ao translado do corpo à cidade natal, onde ele será enterrado.
'Eles entraram já atirando'
Roberta chegou ao IML ainda na quarta-feira para liberar o corpo do marido, mas foi informada de que apenas poderia fazê-lo nesta quinta, junto a peritos do Ministério Público designados para acompanhar o exame de necropsia feito por legistas da Polícia Civil. Ela teve picos de pressão e chegou a desmaiar duas vezes, sendo amparada pelo irmão de Leandro, Ivanildo Sousa, e o chefe dele no Tasca, Leandro Bezerra.
— Ela está muito abalada, não sei nem descrever. Estava passando muito mal, nervosa com tudo. Eu falei com ela que não era a hora do Leandro ir... ele era muito novo, tinha muitos sonhos a realizar. Queria ser pai, inclusive. Eu não tenho críticas a ele, sempre foi um dos meus funcionários mais exemplares. Tranquilo, sem vícios, não arranjava problema com nada. A gente sempre vê notícias assim acontecendo na cidade, mas é diferente quando é com alguém que conhecemos — expõe Leandro.
Segundo ele, Roberta narrou que quatro traficantes entraram na casa por uma das janelas. Eles se esconderam no quarto e, sem que houvesse negociação ou troca de tiros, policiais do Bope adentraram o imóvel e efetuaram disparos, matando os criminosos e atingindo Leandro na cabeça.
— Ela disse que gritou aos policiais que tinham moradores na casa, mas não adiantou. Eles entraram já atirando. Leandro caiu sobre a Roberta, e ela sobre um dos traficantes. O Jiló, esse chefe que morreu, não estava lá, eram outros traficantes — completa.
Ivanildo, além de irmão, é vizinho de Leandro e Roberta. Ele conta ter ficado deitado no chão da casa, junto a esposa e filhos, ouvindo o que acontecia do outro lado.
— Os bandidos quebraram a janela da casa do meu irmão, jogaram as armas debaixo da cama e pediram para ele e a Roberta ficarem quietos. Disseram que não iriam sair se a polícia pedisse, mas também não reagiriam se a polícia entrasse. Mas eu afirmo, não houve nenhuma negociação. O que eu ouvi, da minha casa, foi os agentes pedindo para os criminosos saírem, dizendo que estavam cercados. Depois, ele arrombaram a porta e mataram um por um, incluindo meu irmão. Não teve estratégia, nem paciência. Foram assassinatos brutais. — detalhou.
Negociação de 15 minutos
Em coletiva de imprensa após a operação, o tenente-coronel Marcelo Corbage, comandante do Bope, afirmou que os agentes só entraram na casa de Leandro após ouvirem disparos.
— A gente estava buscando solução pacífica, mas houve disparos de dentro da residência, e o senhor Leandro levou o primeiro PAF (perfuração de arma de fogo) na região da cabeça. Nossa tropa respondeu com fogo, onde houve a ação de neutralização dos criminosos. Conseguimos tirar a dona Roberta em segurança, em estado de choque — disse.
Diferentemente da versão da viúva e de Ivanildo, Corbage destacou que os seis traficantes mortos estavam na casa do casal, e não apenas quatro. Além disso, reforçou que houve uma negociação de 15 minutos enquanto Leandro e Roberta eram mantidos reféns no quarto. http://dlvr.it/TRbNYS